Quarto de despejo – Resenha

Quarto de despejo – Carolina de Jesus

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Quarto de despejo, é o diário de Carolina de Jesus, catadora de papel e moradora da favela do Canindé. Decidiu fazer um diário para trazer à público as dificuldades encontradas pelos favelados. Os vizinhos não gostavam dela porque ela escrevia sobre eles em seu diário.

Carolina nos conta seu dia-a-dia, relatando as dificuldades em que vive e que enfrenta como por exemplo, as péssimas condições de sua “casa”, na verdade um barraco coberto de papelão. Seu desespero em ver seus filhos pedindo comida e não ter o que dar a eles ou o fato de eles não terem sapatos para calçar.

A tontura da fome é pior do que a tortura do álcool. A tontura do álcool nos impele a cantar. Mas a da fome nos faz tremer. percebi que é horrível ter só ar dentro do estômago.

 Algo que chamou atenção foi o comentário dela sobre como as pessoas se comportam na favela, quase que como animais. E mais. Quem se muda para lá, passa a agir da mesma forma. Algo que me lembrou O Cortiço de Aluísio Azeedo, cuja análise de Affonso Romano de Sant’Anna, agem como animais de forma instintiva e estão condenados ao determinismo, que explicaria a mudança de comportamento.

Um lugar que não se pode plantar uma flor para espirar o seu perfume, para ouvir o zumbido das abelhas ou o colibri acariciando-a com seu frágil biquinho. o único perfume que exala na favela é a lama podre, os excrementos e a pinga.

Em alguns momentos, a leitura é dolorosa, como quando ela relata a necessidade de catar comida estragada, descartada pelos atacadistas, para se alimentar e os relatos que ela faz sobre pessoas que adoeceram ou morreram por ter comido essa comida. Seu prazer, era a leitura e ela ficava feliz quando podia dar comida a seus filhos, ainda que fosse uma refeição deficiente.

Sábado é o dia que quase fico louca porque preciso arranjar o que comer para sábado e domingo.

A comida no estômago é como o combustível nas máquinas.

que efeito surpreendente faz a comida no nosso organismo! Eu, que antes de comer via o céu, as árvores, as aves tudo amarelo, depois que comi, tudo normalizou-se aos meus olhos.

Carolina faz uma comparação entre a parte nobre da cidade e a favela. A parte nobre é a sala de estar da casa, no caso, São Paulo e a favela é o quarto de despejo, onde jogamos tudo que não presta, que não queremos mais.

Quando estou na cidade tenho a impressão que estou na sala de visita com seus lustres de cristais, seus tapetes de viludos, almofadas de sitim. E quando estou na favela tenho a impressão que sou um objeto fora de uso, digno de estar num quarto de despejo.

Oh! são Paulo rainha que ostenta vaidosa a tua coroa de ouro que são os arranha-céus. Que veste viludo e seda e calça de algodão que é a favela.

Mesmo com todas as dificuldades, momentos de desespero em que tinha vontade de se suicidar, Carolina se encontrava nos livros.

Um homem não há de gostar de uma mulher que não pode passar sem ler. E que levanta para escrever. E que deita com lápis e papel debaixo do travesseiro. Por isso é que prefiro viver só para o meu ideal.

Para mim, a experiência de leitura foi forte porque os relatos dela como mãe me tocam profundamente, já que também sou mãe. O livro é curto e por ser um diário, dá para ser lido de uma sentada, mas eu não consegui. A edição que li manteve a escrita da Carolina, com erros ortográficos, uma vez que ela cursou apenas as séries iniciais da escola. Carolina faz severas críticas ao governo da época, ao sistema de saúde e de previdência.

De quatro em quatro anos muda-se os políticos e não soluciona a fome, que tem a sua matriz nas favelas e as surcusaes nos lares dos operários.

O que eu concluo após essa leitura, e com tristeza, é que mesmo tantos anos depois as coisas não melhoraram! E, olhe que os relatos da Carolina foram de uma época em que as favelas ainda estavam surgindo em São Paulo!! Na verdade, acredito que as coisas tenham piorado.

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2 comentários sobre “Quarto de despejo – Resenha

  1. Joao Victor disse:

    É um relato bastante intrigante. Quando ela fala sobre a busca constante pelo leite, para dar aos filhos, lembrei-me da obra de Dyonelio Machado, Os ratos. Já o leste? Se não, recomendo muito.

    P.S.: O Cortiço, de Aluísio de Azevedo, não José de Alencar.

    Curtido por 1 pessoa

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